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Ensaio de Gabriela Schein nos convida a valorizar o vivido na “quarentena”

Elipse temporal, numa narrativa, compreende a supressão de momentos que fazem parte de uma história, mas que são deixados, como recurso linguístico, para o interlocutor ouvinte, leitor, espectador supor, preencher, criar.

Gabriela Schein nos convida a não optar pelo tratamento da “quarentena” dessa maneira ao narrar essa nossa história viva. Sem dúvida que desejamos superar esse período de confinamento, o desejamos passageiro. Porém, mais importante do que passar por ele é deter-se para nos dar conta de como ele nos atravessou, nos afetou. E isso vale uma narrativa detalhada.

Acostumados ao liso das informações, às superfícies do cotidiano, ao não sentir mais nada pois nada mais nos espantaria, a interrupção da vida ordinária promovida pela quarentena merece atenção especial. Ela hoje faz parte de uma experiência comum vivida de maneira singular por cada um de nós. Essa experiência ganhou lugar privilegiado em nossas histórias, passou a fazer parte dos elementos constitutivos das subjetividades contemporâneas.

Devemos narrá-la inteira, cheia, sem elipses, nos detalhes para que, ao mesmo tempo, nós próprios a elaboremos em nossa história pessoal e para levar nossa experiência narrada a outras gerações, fazendo com se torne substrato da história social.

Esse foi o exercício feito por Gabi Schein, professora da USINA, no ensaio que segue.

O que você está fazendo na quarentena ou o que a quarentena está fazendo por você?

Gabi Schein*

A experiência, a possibilidade de que algo nos aconteça ou nos toque, requer um gesto de interrupção, um gesto que é quase impossível nos tempos que correm: requer parar para pensar, parar para olhar, parar para escutar, pensar mais devagar, olhar mais devagar, e escutar mais devagar; parar para sentir, sentir mais devagar, demorar-se nos detalhes, suspender a opinião, suspender o  juízo, suspender a vontade, suspender o automatismo da ação, cultivar a atenção e a delicadeza, abrir os olhos e os ouvidos, falar sobre o que nos acontece, aprender a lentidão, escutar aos outros, cultivar a arte do encontro, calar muito, ter paciência e dar-se tempo e espaço. (LARROSA, 2002, p. 24).

Há mais de 90 dias estamos em casa. Num gesto de interrupção. Penso que a maioria de nós viveu um caos. Pessoal, profissional, familiar, escolar, financeiro ou amoroso. Seja de que ordem foi seu caos, depois de mais de 90 dias, algumas dessas tempestades já diminuíram ou estão mais leves. Outras, surgem como nuvens escuras no céu, que mudam de cor diariamente. Temos dias com ventania, levando algumas de nossas inquietudes pra longe. Temos fim de dia rosa, roxo, amarelo, alaranjado, que trazem aconchego e calmaria aos nossos pensamentos. É parar para sentir.

Cada pessoa tem vivido essa experiência, que é coletiva, de um jeito particular. Num mergulho em nossa casa. É a possibilidade de que algo nos aconteça ou nos toque. É olhar para dentro de si. Dar-se tempo para devaneios…Tempo para “e se...” É parar para pensar.

Olhamos para as nossas casas. Aqui na minha, por exemplo, penduramos um quadro que estava encostado num cantinho há 5 anos. Mudamos a disposição dos móveis. Abrimos espaço: interno e externo. Olhamos para um pedacinho da casa dos outros. Cada encontro virtual, cada foto, conhecemos um pedacinho da sala de uma família, do quarto de uma criança. É parar para olhar.

Olhamos para os nossos filhos. Aqui, caiu o primeiro dente de leite. O filho mais velho aprendeu a andar de bicicleta sem rodinhas! O mais novo tem treinado para pular corda. Juntos arriscam-se num jogo de futebol. Criam histórias. Elaboram esse tal de coronavírus.
Um surpreende-se como o tempo passou. O outro só pensa o quanto falta pra chegar o dia de seu aniversário.
Entre isso e aquilo, separo brigas, medeio conflitos. É preciso aprender a conviver o tempo todo. É preciso criar tempo e espaço individual, no coletivo. É dar-se tempo e espaço.

Celebramos aniversários, fazemos happy hour virtual com amigos, ligamos com maior frequência para aquela tia-avó que mora sozinha. Nunca um telefonema foi tão importante. Ou atualmente, diria, uma chamada de vídeo. É cultivar a arte do encontro. Mesmo que à distância, por hora.

Olhamos para o que comemos. Voltamos a cozinhar. O trivial. Arroz, feijão, lavar a salada. Lavamos as compras!!! Cozinhamos mais em casa. Aqui já fizemos bolinho de arroz, bolo de banana, panqueca. Recentemente, fiz batata rosti. Você conhece? Rala a batata, põe na frigideira, rala o queijo, põe em cima. O nosso foi só até aí. Neste ponto, ficamos com água na boca e comemos. Eu e meu filho. Ali na cozinha. Nos deliciamos juntos. É demorar-se nos detalhes.

Olhamos para nós mesmos. Por fora. Cortamos e pintamos os cabelos, hidratamos, cuidamos da pele, pegamos receitas de máscaras caseiras, pintamos a unha! Conquistamos novas habilidades. Olhamos para nós mesmos, por dentro. Fizemos análise por vídeo. Procuramos achar os olhos nos olhos na tela. Lembramos muito mais dos nossos sonhos. Quais são os nossos sonhos? Mergulhamos em nós mesmos. É falar sobre o que nos acontece.

E o que nos acontece é essa experiência. Que requer tempo, mesmo que ele insista em querer correr. Requer condições de abertura sensível ao que está sendo vivido, mesmo que a sensibilidade esteja a flor da pele.
Experiência que abala nossas certezas e vem nos transformar. Viver essa experiência implica em expor-se. Expor-se ao não-sabido. Expor-se a incerteza da experimentação. E abrir-se a um novo devir.

E você, o que você está fazendo na quarentena ou o que a quarentena está fazendo por você?

LARROSA, Jorge . Notas sobre a experiência e o saber da experiência. Revista Brasileira de Educação. Tradução João Wanderley Geraldi, 2002. Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/rbedu/n19/n19a02.pdf. Acesso em: 6 Jan. 2020.

*Gabriela Schein é professora da USINA/CSD

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